Um modelo de negócios de sucesso? Pedro Waengertner, cofundador da ACE, tem a resposta

Fundador e CEO da aceleradora ACE, Pedro Waengertner tem larga experiência quando se trata de inovação nos negócios. Ele decidiu compartilhar seu conhecimento no livro “A Estratégia da Inovação Radical” (Editora Gente), no qual destaca algumas táticas que podem ser exploradas pelas empresas para a adoção de uma postura de experimentação e mentalidade centrada no cliente.

Na recém-lançada obra, ele procura mostrar que a inovação precisa deixar de ser uma área específica e se tornar uma competência do negócio, a partir de princípios adotados por organizações de ponta do Vale do Silício (EUA), polo referência no assunto.

Aumentar a flexibilidade organizacional e garantir que a companhia possa trabalhar com diferentes parceiros, assim como acelerar o ciclo de aprendizado corporativo – permitindo erros no processo, mas de modo rápido e com baixo custo – são outras dicas do especialista, que dividiu a obra em seis pilares: “Gestão Ágil”, “Trabalhe com Parceiros”, “Mate seu Próprio Negócio”, “Design Organizacional”, “Clientes no Centro” e “Pense como um Investidor”.

Waengertner conversou com o Blog Agronow sobre esses temas e traçou um panorama atual das startups e agtechs brasileiras. “Vejo startups ótimas se desenvolvendo e acho que não irá demorar para sermos apontados como exemplo deste tipo de empresa em todo o mundo”, afirma. Confira a entrevista:

Qual a importância da inovação para a competitividade de qualquer empresa?

Mais do que nunca, inovar é fundamental para qualquer empresa. Seja uma startup ou uma megacorporação, quem deixar de inovar não vai muito longe no mercado. Se você parar para analisar a lista das maiores empresas do mundo, verá que existe uma troca cada vez mais rápida de nomes por lá. Por trás disso está justamente a capacidade de uma empresa se manter inovadora, seja  qual for o cenário ou o momento.

O que podemos aprender com o modelo de inovação adotado pelas grandes empresas do Vale do Silício?

Acho que o mais importante a destacar é que quando falamos de Vale do Silício não é necessariamente o lugar – geograficamente falando – que importa. Mas sim a mentalidade que permeia boa parte dos negócios por lá. E essa mentalidade tem uma série de características que facilitam a criação de projetos inovadores. Falamos muito de aspectos como a abertura ao erro, por exemplo, mas acho que tem outros fatores tão ou mais importantes, como o fato de serem companhias menos hierarquizadas e que sabem, de fato, entender as necessidades dos clientes antes de sair criando novos produtos.

Quais aspectos tornam o atual momento especial para o surgimento de novas ideias e desenvolvimento de startups no Brasil?

Acho que o empreendedor brasileiro está cada vez mais maduro. O empreendedorismo local já passou por várias fases e agora vivemos um momento riquíssimo, o que atrai interesse de investidores e melhores empreendedores para o ecossistema. Vejo hoje muita gente empreendendo que, não faz muito tempo, se contentaria com os melhores cargos e salários em companhias tradicionais. O exemplo das primeiras grandes startups brasileiras, e também o que vemos e aprendemos no Vale do Silício, têm estimulado o desenvolvimento de muita coisa boa por aqui.

Por favor, fale um pouco sobre “Open Innovation” e como ela pode ajudar o crescimento de startups no país. Esse conceito já está bem difundido no Brasil?

A inovação aberta é um princípio muito importante para qualquer ideia inovadora. É na troca que surgem as grandes ideias. E quando vemos grandes empresas abertas a colaborar e receber colaboração de startups, sabemos que estamos no caminho certo. A troca entre culturas tão diferentes tem muito a colaborar. Este é um conceito que começa a ficar mais popular agora no Brasil, mas ainda há muita confusão sobre como conduzir projetos de inovação aberta. Muitas empresas tentam fazer isso sem saber ao certo por onde começar ou, principalmente, o que esperar desses projetos. E isso acaba levando a alguns erros básicos, como achar que startup é apenas um fornecedor barato ou que a abertura da inovação funciona apenas para um lado.

Considerando sua experiência internacional e na ACE, como avalia o nível das startups brasileiras? Elas oferecem soluções satisfatórias às demandas do mercado? São competitivas comparadas às estrangeiras?

As startups brasileiras são cada vez melhores. Isso é reflexo de termos empreendedores cada vez mais bem preparados por aqui. Muitas startups brasileiras já são melhores do que as dos Estados Unidos, da China ou de Israel. Mas ainda falta ao empreendedor brasileiro, em geral, uma visão internacional. Talvez por sermos um país tão grande, é comum que o empreendedor se contente em dominar o mercado local, quando poderia pensar globalmente.

As agtechs têm se destacado? Quais suas principais virtudes e dificuldades?

Gosto muito das agtechs e acho que o Brasil tem todo o potencial para dominar este setor. Vejo startups ótimas se desenvolvendo e acho que não irá demorar para sermos apontados como exemplo deste tipo de empresa em todo o mundo. A vocação agrícola brasileira é uma grande vantagem e contribui muito para esse cenário. É quase que uma obrigação moral do Brasil ter as principais agtechs do mundo. Mas a dificuldade mora justamente no fato de este já ser um setor muito consolidado e tradicional por aqui. Vencer as barreiras à inovação em um time que, aparentemente, está ganhando, sempre é mais difícil.

Quais dos pilares listados no livro você mais observa sendo seguidos pelas startups brasileiras? E quais estão mais distantes da realidade delas e podem ser mais bem explorados?

Acho que as startups brasileiras sabem trabalhar bem com parceiros. O surgimento de tantas comunidades locais é um bom exemplo dessa vocação, que também pode ser vista na quantidade de programas de inovação corporativa que existem por aí. E é engraçado, porque essa é uma grande dificuldade de muitas grandes empresas. Por outro lado, ainda pecamos muito na questão do design organizacional. Vejo muita gente se preocupando mais em criar escritórios descolados do que em estruturas que facilitem a inovação. E isso vale tanto para startups como para grandes empresas.

Tradicionalmente, a agricultura é um ramo conservador e muitos envolvidos no agronegócio ainda têm certas reservas em relação a investimentos em tecnologia e inovação. Como popularizar de vez a tecnologia no campo?

Setores tradicionais e já consolidados tendem mesmo a ser mais conservadores quando o assunto é inovação. O jeito para contornar essa barreira é colocar o cliente no centro e entender exatamente quais são suas dores. A tecnologia por si só não é argumento suficiente, mas a resolução de um problema que seja realmente grande para o cliente é um passo fundamental para convencer alguém a assinar um cheque.


Estratégia da Inovação Radical

A Estratégia da Inovação Radical

Editora: Gente
Lançamento: 2018
Autor: Pedro Waengertner
Prefácio: Ricardo Amorim
Preço: a partir de R$ 24,90 (Saraiva) (Amazon)

Deixe um comentário