Safras recordes na produção agrícola brasileira colaboram com a queda histórica da taxa Selic e com a retomada do consumo

O Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central reduziu a taxa Selic em 0,5% neste mês, no décimo corte consecutivo. Desde agosto do ano passado, a taxa caiu de 14,25% para 7%, atingindo o menor percentual da história – Banco Central adotou o sistema de metas de inflação em 1999.

A taxa do Selic (Sistema Especial de Liquidação e de Custódia) serve de referência para todas as outras taxas de juros praticadas no mercado – como cheque especial, empréstimos, rotativo do cartão de crédito, financiamentos e alguns tipos de investimento, como a renda fixa.

A Selic é um instrumento do Banco Central para influenciar a inflação da economia. Com a taxa mais baixa, a atividade econômica é estimulada, incitando o consumo e dando margem a uma inflação mais alta.

Especialistas em economia apontam uma série de condições para a queda do índice. O próprio Copom considerou “o processo de reformas e ajustes da economia, a posição favorável do balanço de pagamentos brasileiro, o cenário internacional vantajoso e os sinais de recuperação gradual da economia” como motivos relevantes para mais um corte na taxa.

Nesse contexto, o agronegócio aparece como fator importante, graças às safras recordes na produção agrícola, que permitiram preços mais baixos ao consumidor.

O pesquisador Leandro Gilio, do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada) da Esalq-USP, ressalta que houve resultado negativo na relação entre os deflatores do agronegócio e da economia como um todo.

“Isso expressa a dimensão da perda de rentabilidade da produção do setor frente à média da economia. Porém, tal fato, quando aliado à estimativa de crescimento da produção do setor, reflete-se positivamente em indicadores econômicos para o país, dada a contribuição do setor no controle da inflação e disponibilidade de alimentos, fibras e energia a um menor custo de compra no mercado interno e elevação da competitividade das exportações brasileiras”, afirmou, destacando a influência do agronegócio para os cortes.

“Sendo a taxa Selic um dos principais instrumentos de política monetária de controle inflacionário utilizados pelo Copom, o efeito importante que o agronegócio teve sobre a inflação brasileira neste ano, exercendo pressão sobre sua redução, certamente teve papel preponderante”.

Cenário para 2018

Gilio aponta previsão de produção agropecuária mais modesta em 2018, tendo como base projeções da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) – que indica recuo entre 4,4% e 6,2% na próxima safra de grãos – e do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) – que prevê 9,2% de diminuição na produção de cereais, leguminosas e oleaginosas em 2018.

Segundo o pesquisador do Cepea, além do agronegócio, outros indicadores econômicos serão essenciais para a definição da Selic no próximo ano.  “Atualmente, as perspectivas do mercado apontam crescimento econômico (PIB Nacional) na casa dos 2% e inflação sob controle. Esse cenário indica que a taxa básica de juros fique, pelo menos, estável nesse patamar. Porém, cabe destacar que no próximo ano teremos um pleito eleitoral provavelmente conturbado. Além disso, teremos como avaliar melhor os efeitos das reformas relativas ao equilíbrio orçamentário realizadas pelo governo. Esses e outros aspectos podem impactar dentro do contexto de recuperação econômica do país, podendo levar ao Copom a necessidade de reação com o uso de política monetária sobre a Selic”, ponderou.

Gilio ainda citou um panorama favorável para a redução de custos em operações de crédito rural. “Certamente a redução da Selic abre a possibilidade de maior disponibilidade de crédito no mercado, inclusive rural, oferecidos por bancos públicos, privados e cooperativas”, concluiu. 

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