O CEO Antônio Morelli: um homem multiplicado por mil

Antônio Morelli, CEO da Agronow, e Fernando Pessoa (1888-1935), poeta português, têm duas características em comum: eles são um só, mas poderiam ser vários; falam português, mas suas linguagens são universais.

Há um terceiro ponto ainda que os une, de alguma maneira. Trata-se de um verso do “Livro do Desassossego”, obra póstuma de Pessoa, na qual o narrador é um semi-heterônimo, Bernardo Soares.

“Tudo em nós está em nosso conceito do mundo; modificar o nosso conceito do mundo é modificar o mundo para nós, isto é, é modificar o mundo, pois ele nunca será, para nós, senão o que é para nós.”

Poeta universal, Pessoa provocou uma verdadeira revolução no meio literário e conduziu uma densa reflexão sobre conceitos como verdade, existência e identidade, que permanece extremamente atual na fragmentada sociedade contemporânea.

Morelli, por sua vez, começa a provocar uma verdadeira revolução no agronegócio, oferecendo aos agricultores a possibilidade de entrar em uma nova era de informação no campo. “Temos uma responsabilidade social, que é trabalhar para melhorar a agricultura no país”, diz Morelli. Completo: no Brasil e no mundo.

Prestes a completar 47 anos, Morelli é um incansável. Agenda cheia, reuniões profissionais, família, viagens – e a lista de atividades é interminável. Hoje, diz ele, os tempos são até calmos. Há alguns anos, com uma tese de mestrado em fase final e uma ideia na cabeça, à época o embrião da Agronow, Morelli ficava 17 horas por dia em frente ao computador, trabalhando. Ou seja: era preciso ser mais de um, talvez dois, até três.

Hobbies? Deixou todos de lado. “Eu tinha cabelo, quer coisa mais importante”, brinca ele. “Pesava 25 quilos a menos. É a ansiedade, você abre mão de muita coisa. Meu filho nasceu nessa época, e eu não pude dar a atenção que deveria. Eu dormia três, quatro horas por dia.”

Antônio Morelli quando atuava na Sigmatech antes da Agronow
Antônio Morelli quando atuava na Sigmatech antes da Agronow

A dissertação para se tornar Mestre em Ciências Agrárias pela Esalq/USP, “Fluxo de energia aplicada à produção de biomassa”, apresentada e aprovada em 2013, abriu um novo horizonte para Morelli. Há anos ele já atuava em negócios agroambientais. Ele e Walkiria Sassaki, também sócia na Agronow, fundaram em 2004 a Sigmatech, empresa de consultoria agroambiental de mapeamentos.

EXPERIMENTE A PLATAFORMA AGRONOW GRÁTIS

Dez anos depois, começava-se a estruturação da Agronow. Primeiro, Guga Stocco; depois, Emiliano Melchiori. O time estava pronto, e a ferramenta pioneira começaria a ganhar contornos reais até chegar ao mercado, em 2016, após aporte do fundo de investimento SP Ventures, que viu na Agronow um instrumento efetivo para melhorar a produtividade agrícola com potencial global.

Obstinado por natureza, Morelli nunca pensou em se tornar CEO. “Não pensei em ser o cabeça. Por vocação e oportunidade, cada sócio foi assumindo algumas funções”, diz. Ainda que 25 quilos acima do desejado, o cargo o veste perfeitamente.

A missão da Agronow segue exatamente a visão de mundo que Morelli defende. “Sou do interior, de Araraquara (SP), uma região agrícola, com muita cana de açúcar”, conta. Policial ambiental por 12 anos, atuou diretamente no campo. “Você olha o horizonte, anda horas e horas nas plantações de cana. Eu olhava aquilo e pensava: ‘não é possível, de alguma maneira posso trabalhar com isso, posso ganhar dinheiro aqui’. Na época, ainda, existia muito corte de cana manual. Isso não é trabalho de gente, eu pensava. Eram várias provocações internas.”

Foram esses questionamentos que o levaram ao mundo acadêmico, onde Morelli estudou Biologia. Especializou na área de meio ambiente, geoprocessamento e ciências agrárias. Ao longo dos anos, carregava uma missão: revolucionar o setor agrícola.

“O legado da Agronow é colaborar com a agricultura no país, introduzindo uma tecnologia que efetivamente melhora a produção e mostrando para o cara do campo que tem alguém que pensou nele, ele não está sozinho”, afirma Morelli.

Desde sempre, a atuação dele seguiu esse princípio, ainda que ele próprio não tenha parado para refletir. Simples como um homem do campo e dono de uma postura de vanguarda admirada no mundo empresarial, Morelli consegue falar com gregos e troianos. Ora é didático, ora é enfático, conforme a situação pede, mas sempre é eloquente – tal e qual Fernando Pessoa e seus heterônimos.

Quando, após quatro anos dormindo e acordando pensando na mesma fórmula – o algoritmo que faz toda a plataforma da Agronow funcionar –, Morelli chegou às respostas que procurava, ele logo viu que tinha em mãos um produto inovador. Visionário como um CEO deve ser.

Sob a forma de plataforma web, a ferramenta da Agronow utiliza imagens de satélites e tecnologia baseada em conceitos termodinâmicos para determinar a produtividade agrícola, permitindo um total diagnóstico da safra. Na prática, o mapeamento oferece ao agricultor a possibilidade de localizar pragas, aplicar insumos de maneira mais eficiente, identificar áreas mais e menos eficientes e, mais importante, prever quanto a safra vai produzir, além de fornecer dados sobre o atual estágio do cultivo.

Apesar de complexo, todo o processo é realizado de maneira remota, proporcionando excelente precisão e um custo infinitamente mais baixo que as soluções de mapeamento e de gestão agrícola oferecidas no mercado atualmente. A plataforma realiza o monitoramento por intermédio de um sofisticado algoritmo matemático, imagens de satélites e um poderoso banco de dados com informações sobre produções agrícolas e dados climáticos.

No início, Morelli gastava quatro dias para, manualmente, após o mapeamento de uma área, determinar a produtividade agrícola dela. “A satisfação de ver que funciona é muito grande”, diz. Com o tempo, a partir da automatização do processo, a Agronow passou a diagnosticar qualquer área do mundo em algumas horas, depois alguns minutos e, hoje, em quatro segundos. “Quando vi funcionando em alguns minutos, eu quase chorei. ‘Funciona, velho, não é um sonho’. Hoje, é praticamente instantâneo. É fantástico! Você me pega admirando o trabalho do pessoal aqui direto. E mais legal ainda é quando você coloca o produtor rural na frente da ferramenta. É muito satisfatório.”

Morelli quer mais. “A Agronow nasceu com a visão de ser uma empresa mundial. Desde a primeira versão, já a fizemos em três idiomas.”

Com aproximadamente 850 produtores e 43 empresas atualmente na carteira, Morelli volta a enfatizar a missão da Agronow: “democratizar a informação do campo”. “Nós temos a finalidade de trazer dividendos aos sócios e acionistas, sim”, explica Morelli. “Mas, mais do que isso, temos uma responsabilidade social, que é trabalhar para melhorar a agricultura no país. Que o produtor consiga ter um negócio mais rentável, que a operação do campo – que apresenta riscos, é a céu aberto – seja mais segura. Se continuarmos a contribuir assim, estaremos cumprindo a nossa missão.”

No último trimestre (de novembro de 2016 a janeiro de 2017), a taxa de crescimento da Agronow foi superior a 260%. Em 2017, a empresa espera chegar a 2.500 usuários e, em cinco anos, a 10 mil. Para tanto, ainda neste semestre o mapeamento poderá ser feito, além de via web, por meio de um aplicativo para celular e tablets.

Outro objetivo é a expansão internacional. Com escritório na Argentina, o foco é crescer na América do Sul já este ano para, na sequência, mirar o mercado dos Estados Unidos.

Fácil? “Você se coloca em um ritmo que não tem outra escolha. Você tem que fazer, não tem jeito”, afirma. Ele é um só, mas muitas vez é vários.

O CEO Antônio Morelli: um homem multiplicado por milFoi assim, por exemplo, quando começou a pensar em um fundo de investimento para viabilizar a Agronow. A ideia era fantástica, inédita, inovadora. Trata-se de uma ferramenta de real interesse ao homem do campo, seja o grande fazendeiro e empresário, seja o pequeno produtor. Bastava?

“Fizemos tudo, o beabá para chegar ao fundo. Tínhamos um bom produto, mercado, lemos tudo o que existe sobre os fundos de investimento. Mas ninguém avisou que demorava tanto, quanto custava. Quando você chega lá, é só o primeiro degrau de uma escada a perder de vista. Receber uma prospecção não significa nada”, conta.

À época, focado no produto da Agronow, a Sigmatech acabou deixada de lado – melhor: virou base de operações para a futura empresa. “Chegamos descapitalizados, fragilizados. Quando o fundo dá o ‘term sheet’ [uma carta de intenções], você acha legal, fica animado. Mas isso só significa que você não pode procurar outro fundo. Significa que você vai passar para uma série de avaliações para ter o aporte”, conta Morelli. No período, por exemplo, uma auditoria pediu precisamente 385 documentos.

Para se manter firme, uma frase do Rei do Crime, Wilson Fisk, personagem do universo da Marvel Comics, cujo boneco faz parte da decoração da mesa de trabalho. “Um problema é só uma oportunidade em potencial”. Walkiria, ao seu lado, lembra outra máxima da Agronow: “Hoje não cai nenhum espartano”.

“Se você não acredita realmente no seu projeto, se você não acredita que vai dar certo, você joga a toalha. Você precisa de cara de pau mesmo. Vender carro, refinanciar dívida, contar com a ajuda da família, dos amigos. É um processo muito longo e custoso”, explica Morelli.

É quando Morelli fala sobre o futuro, contudo, que é possível entender o que o mantém em pé. “Se você me trouxer um cliente de R$ 20 milhões, vai ser muito legal. Mas se você chegar com 20 milhões de clientes, cada um gastando R$ 1, vai ser mais legal ainda. A ferramenta vai ter seu sentido completo quando todo mundo conseguir usá-la.”

EXPERIMENTE A PLATAFORMA AGRONOW GRÁTIS

Deixe seu comentário