‘Eficiência acima de tudo’ são as novas palavras de ordem do agronegócio, diz professor da USP

Especialista em planejamento estratégico do agronegócio e professor titular da FEA (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade) da USP (Universidade de São Paulo) em Ribeirão Preto (SP), Marcos Fava Neves é o entrevistado da semana na série “Cultivando o Futuro, Agora”.

Marcos Fava Neves é professor titular da FEA
Marcos Fava Neves/Divulgação

Com um extenso currículo acadêmico, que inclui mestrado e doutorado em administração, além de pós-graduações na França (Agronegócios e Marketing de Alimentos) e Holanda (Canais de Distribuição de Alimentos), Neves também se destaca como autor e organizador de livros e palestrante – com 60 obras publicadas no Brasil e exterior e mais de 1.000 palestras ministradas pelo mundo.

A carreira prolífica faz com que seja uma figura importante nas discussões acerca do agronegócio, que ele vê como um dos grandes pilares da economia nacional.

“O agro representou 44,1% de todas as exportações em 2017. Sem o agro, teríamos um déficit de US$ 15 bilhões na balança comercial. Nos últimos 20 anos, as exportações acumuladas do agro atingiram a incrível marca de US$ 1,23 trilhão – valores atuais, podemos estimar entre R$ 5 a R$ 10 trilhões o montante que entrou pelos nossos portos e subiu até as fronteiras com os países andinos, movimentando a economia e permitindo distribuição de renda e inclusão”, afirma.

Para ele, o agro está diretamente ligado à retomada do crescimento do país. “As quase 240 milhões de toneladas de grãos produzidas em 2017 (28% acima do ano anterior), somadas às carnes, às frutas, sucos, café, biocombustíveis e bioeletricidade, entre outros, contribuíram fortemente para o impressionante recuo da inflação no Brasil e, consequentemente, para a queda na taxa de juros.”

Tecnologia no Campo

Questionado sobre como a chegada da tecnologia e inovações como a inteligência artificial, robótica e Internet das Coisas podem influenciar a produção agrícola, o engenheiro agrônomo afirma que elas “modificarão completamente as relações no setor, o trabalho no setor e a eficiência, dando início à morte do conceito do hectare e o nascimento da agricultura por metro quadrado”. “Eficiência acima de tudo!”, ressalta Neves, que pondera a necessidade do planejamento estratégico para que os produtores aproveitem as boas condições do momento.

“É fundamental, por permitir analisar as oportunidades existentes, fazer um diagnóstico da situação atual de cada um, montar objetivos e implementar estratégias para atingi-los. Disciplina e visão de mercado, buscando sempre bons indicadores.”

“Inteligência artificial, robótica e Internet das Coisas modificarão completamente as relações, o trabalho no setor e a eficiência, dando início à morte do conceito do hectare e o nascimento da agricultura por metro quadrado. Eficiência acima de tudo!”

O professor, que já orientou cerca de 40 teses de doutorado e participou de mais de 150 bancas, considera as universidades e centros de pesquisa importantes para o desenvolvimento do agronegócio e avalia que eles vêm mantendo sinergia com os outros atores da cadeia produtiva.

“Boa parte de nossas escolas tem docentes fortemente integrados ao setor produtivo, ajudando nas soluções. Mas sempre há espaço para o engajamento de mais pessoas e o aumento da cooperação”, diz.

Em ano eleitoral, momento no qual as discussões sobre o papel do poder público no incentivo à agricultura voltam à tona, o especialista acredita que é preciso “ter sempre um macro plano estratégico e tomar ações para a melhoria da competitividade dos produtores, ligadas a toda a agenda de reformas estruturantes, privatizações e acordos comerciais visando desenvolvimento de mercados”.

Neves tem uma percepção positiva sobre a atual organização das cadeias produtivas do agro nacional, mas pontua aspectos a serem aperfeiçoados. “A coordenação vem melhorando muito, mas ainda há um longo trabalho pela frente de maior profissionalização das organizações, dos agentes e melhoria dos relacionamentos.”

Concluindo, ele vislumbra um futuro promissor para a agricultura brasileira. “O crescimento do nosso PIB, após um período sombrio, deve favorecer o agronegócio pela volta do consumo no mercado interno, puxando vendas de carnes e lácteos, principalmente, e com isso os grãos para fazer as rações usadas nestas produções”, afirma. Neves lembra, ainda, que as perspectivas mundiais também são boas, “pois teremos pelo menos dois anos de economia mais aquecida, com crescimento mundial esperado de 4% neste ano, com impactos positivos ao agro e ao Brasil”.

Deixe um comentário